O principal motivo pelo qual eu assino o Pro do Letterboxd é o mapinha que mostra os filmes que você viu de cada país. Ontem eu vi Pequenos Pecados, de 2025, dirigido pela Urška Djukić, que foi a indicação da Eslovênia para o Oscar desse ano. Achei que tinha sido meu primeiro filme desse país, mas o Letterboxd me lembrou que eu já tinha visto Liberation Day, um documentário sensacional da banda Laibach na Coreia do Norte. Mas isso é assunto para outro momento.
Pequenos Pecados, em inglês leva o nome de Little Trouble Girls, referência direta à música do Sonic Youth, que sim, toca no final do filme, para minha alegria. No longa temos Lucia, de 16 anos, que se junta ao coral da escola católica e se torna amiga da carismática Ana-María. O coral todo viaja para um convento, para uma série de ensaios, e lá a amizade delas se intensifica e se abala ao mesmo tempo.
Imagine ter seu despertar (bi)sexual dentro de um convento na Eslovênia, rodeada por amigas, homens que estão lá trabalhando em reformas, freiras e imagens religiosas por todo lado. A diretora mescla imagens de frutas, natureza e insetos com imaginário religioso.
O filme traz aqueles conflitos comuns de amizade de garotas na adolescência: descoberta da sexualidade e atração por homens mais velhos. Aqui ainda há a questão religiosa de plano de fundo. Elas questionam uma freira a respeito do celibato, sobre a falta de contato humano e ficam pensativas com as respostas.

Lucia parece estar desconectada da realidade o tempo todo. Sempre alguém a chama e a manda parar de sonhar. Em alguns momentos ela chega a irritar, com a sua passividade diante dos acontecimentos, como quando ela encontra um homem nu e não fala nada, fica ali parada esperando algo acontecer. Um dia eu já fui uma garota de 16 anos, completamente diferente de Lucia, mas faço um esforço para entender seu comportamento.
A Eslovênia está ali do outro lado do mundo, mas minha adolescência dos anos 2000 tem bastante em comum com a de Lucia, no fim das contas. A culpa católica estava ali também. Eu, ensaiando virar Wicca (que atire a primeira pedra quem não foi uma adolescente gótica metida a bruxinha), ainda fazia o sinal da cruz antes de sair de casa, como me fora ensinado.
Na minha época ainda não tínhamos celulares que tiravam fotos, mas tínhamos os SMSs, a brincadeira de “Verdade ou Desafio”, a fascinação com homens mais velhos e aquela relação turbulenta com as amigas. Em meio às descobertas era impossível definir o que era carinho e o que era competição.
O final do filme é uma pérola: Lucia sentada comendo uvas (uma referência a determinada cena) enquanto toca a citada música do Sonic Youth. Ser adolescente não é fácil, ainda mais com a questão religiosa infiltrada em tudo, fazendo a vergonha aflorar.


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