Há uns anos fiz um curso de história do cinema e nele conheci a diretora francesa Alice Guy Blaché. Eu já me considerava uma pesquisadora no assunto e nunca tinha ouvido falar dela. Fucei meus livros de cinema e zero menções à ela. Guy Blaché faleceu em 1968, aos 94 anos, tentando ter seu nome reconhecido na história do cinema. Infelizmente demorou até que ela ganhasse um documentário (esse aqui) e sua história como primeira diretora de um filme de ficção se tornasse minimamente conhecida.

No Brasil a história não é muito diferente. Após alguma pesquisa, encontrei Cleo de Verberena, nome artístico de Jacyra Martins da Silveira, considerada a primeira diretora do cinema brasileiro. Infelizmente seu longa O Mysterio do Dominó Preto, lançado em 1931, é considerado perdido. Naquela época os filmes eram feitos de nitrato, material altamente inflamável. Ao longo dos anos diversos países tiveram seus filmes perdidos por esse motivo. 

O livro

Em 2021 a editora Giostri publicou o livro Cleo de Verberena e O Mysterio do Dominó Preto da pesquisadora Marcella Grecco. Ela é doutora pela USP em Meios e Processos Audiovisuais e sua tese foi justamente sobre Cleo de Verberena. Grecco fez um exímio trabalho de pesquisa em jornais da época e também entrevistando parentes de Verberena para construir esse perfil sobre a diretora. 

Como citado acima, o filme está perdido e tudo que podemos saber sobre ele é o que foi publicado nos jornais. O longa foi baseado em uma história de Aristides Rabello, autor pioneiro da literatura brasileira no Brasil. Marcella Grecco discorre a respeito da publicação da história, primeiro no formato de folhetim e depois em uma revista argentina. Cleo de Verberena não só dirigiu, como também atuou no filme. 

Uma curiosidade é que o tal Dominó da história não é o jogo como conhecemos hoje, mas sim uma fantasia de Carnaval da época. No enredo, o estudante de medicina Virgílio reencontra uma antiga namorada, Cleo, em meio ao carnaval do Rio de Janeiro. Ela está vestida de Dominó e afirma precisar de ajuda, pois foi envenenada. Ele a leva a seu apartamento, e antes de morrer, ela lhe conta que seu amante foi o responsável. Assim se conduz o longa, com Virgílio e seu amigo Marcos tentando descobrir o que realmente aconteceu. 

Foi também no livro de Marcella Grecco que conheci Lia Torá, a primeira atriz brasileira a atuar em Hollywood. A autora também fala sobre a lenda de Torá ter dirigido um filme por aqui, mas não há provas. 

Todos os dias redescobrimos novas escritoras, artistas e pensadoras que foram apagadas ao longo da história. Não é diferente com as diretoras. Sempre há um nome a ser estudado, e a duras penas, pois pouco foi documentado sobre as mulheres. O cinema, como conhecemos hoje, foi moldado pelo trabalho das mulheres. Ele só se tornou um território dos homens quando passou a dar dinheiro e ser considerado uma arte de valor. Até então eram elas que estavam atrás das câmeras, editando e escrevendo roteiros. Aproveito para recomendar o documentário de 2016, E a mulher criou Hollywood

Mais uma vez,  elogio o trabalho de Grecco ao nos trazer a história de Cleo de Verberena, infelizmente ainda desconhecida do público. Já passamos há muito tempo da fase de achar que o cinema brasileiro era inferior ao produzido no exterior, mas ainda há muito de nossa história a ser contada e relembrada.

Confira essa aula de Marcello Grecco sobre a Cleo de Verberena.


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