Esse texto foi publicado na primeira temporada da Cine Varda, em julho de 2021.

Considero o diálogo entre mulheres uma das possibilidades mais potentes para uma ideia de autoria feminista, seja no cinema ou na literatura. Quando uso o termo feminista aqui, me refiro à escrita/realização de mulheres que esteticamente re-pensa os modos e práticas de contar e se contar em outras e novas narrativas. Há algum tempo investigo a representação de escritoras no cinema (e mais recentemente nas séries também) pois percebo essa via como uma potente forma de recepção da própria escrita dessas mulheres, ou seja, o cinema também como crítica literária.

Indo em direção a essa busca por narrativas que fogem do lugar comum de apenas ilustrar vida de escritoras, percebi que muitos filmes não propõem relações entre as pessoas que realizam com os seus eus que leem a obra das retratadas. Me parece que na maioria das representações existe apenas um esforço burocrático e corriqueiro de mostrar vidas desconectadas da escrita e imersas em morais abaladas. Não nego que narrativas mais acessíveis colaboram muito com o acesso, como foi por exemplo com Sylvia, de 2003, dirigido pela Christine Jeffs; ou ainda a série Z: The Beginning of Everything, das Dawn Prestwich e Nicole Yorkin, disponível na Amazon Prime. Ambos, filme e série, colaboraram para que Sylvia Plath e Zelda Fitzgerald pudessem ganhar reedições, traduções e antologias de suas obras, mesmo que com representações questionáveis. Mas, aqui, o que me interessa é buscar personagens que são afetadas pela escrita, como ela modifica e se entranha nos corpos dessas mulheres a ponto de ser parte integralmente associada a suas biografias. Dois filmes que assisti nesse imenso período de pandemia foram Shirley, da diretora estadunidense Josephine Decker, e Loucas Noites com Emily, de Madeleine Olnek.

Sobre a Shirley Jackson – e as obsessões que ela causa – você pode ler o texto da Michelle sobre como ela assistiu o filme sendo uma leitora da escritora estadunidense.1 O filme de Josephine Decker não pretende ser uma cinebiografia da autora e sim uma possibilidade diante da condição de escrita, não apenas de Jackson mas também da diretora que adapta partindo de um romance homônimo, de Susan Scarf Merrell. Conhecendo um pouco da produção de Decker – e sua trajetória no cinema experimental – a realizadora se mostra afetada por essa via tripla de escrita.

No filme, a escritora – interpretada habilmente por Elisabeth Moss – está trabalhando em um romance, que pode ser The Bird’s Nest (1954)2, porém o tempo fica impreciso apesar das ambientações da direção de arte e figurino acenaram para a transição da década de 1950 para 1960. Aqui, desconsiderando o livro de Susan Scarf Merrell (que ainda não foi traduzido no Brasil), The Bird’s Nest trata de uma mulher que sofre de um transtorno de múltipla personalidade e ficou conhecido por afetar a própria escritora, que teve que tirar férias no verão de 1953. Aí que Shirley trata justamente de explorar essa espécie de contaminação da escrita que atravessa o corpo da escritora, essa que luta contra a febre que a domina, ao mesmo tempo que percebe que não consegue escrever sem estar fora de si. Além da situação física que acaba acentuando o humor e as obsessões de Shirley, ela e o marido recebem em sua casa um jovem casal; ele, aspirante a acadêmico de literatura e ela, uma jovem grávida. A presença dessa dupla de personagens irá afetar a escrita e a relação de Shirley Jackson com o marido Stanley Edgar Hyman.

A psicanalista e amiga Tatianne Dantas escreveu, na época em que viu o filme, que Shirley evocava outras duas escritoras: Sylvia Plath e Marguerite Duras. Uma com a escrita como única saída possível – numa entrada do diário, em 1959 – e a outra tomada pela febre da escrita. Na verdade, ambas intercambiam esses sentimentos mesmo que em tempo-espaço diferente. Várias questões em Shirley diferem da vida da escritora real; os filhos desaparecem (ela teve quatro) e a relação entre o marido e ela é marcada por uma visão menos romantizada de época. Enquanto Shirley está em processo de performance da escrita – tendo de sua parte um afetamento completo do corpo – o marido diz que faz tempo que ela não escreve nada de mais, enquanto segue assediando alunas e se comportando como o bom e velho homem acadêmico. Ele não é o “primeiro leitor” e “crítico” da obra dela, é apenas um homem intelectualizado que se sente autorizado a falar sobre a escrita dessa mulher que não está para a ordem da lógica e sim da performance. É justamente uma ideia de febre da escrita que Josephine Decker tenta dar conta no filme, fazendo com que a atuação da Elisabeth Moss – e das outras mulheres no filme – seja o retrato de um processo de escrita.

Em Loucas Noites com Emily, a diretora Madeleine Olnek também opta pela via de afetamento pelo corpo, situação que conduz para a produção poética. Porém, nesse filme, há a busca pela via do cômico, sendo que a escolha da atriz Molly Shannon como Emily Dickinson já deixa isso bastante claro. O filme trata basicamente da relação da poeta oitocentista com Susan Gilbert Dickinson que, antes de ser sua cunhada, foi amiga e amante durante boa parte de sua vida. Partindo do poema Wild Nights, endereçado à Susan como boa parte dos poemas, que diz “Noites Loucas – Noites Loucas!/ Contigo estaria/ Em noites loucas assim/ A nossa luxúria” (tradução de Adalberto Müller) o filme caminha em explorar a aventura dessa relação na vida da poeta tratada corriqueiramente como sisuda, séria e casta.

Diferente da relação de Shirley com o marido, aqui Emily e Susan têm uma relação dialógica tanto na poesia quanto no desejo. É claro que ambas, no meio do século XIX, precisaram fazer acordos para que pudessem ficar juntas. Porém, nenhuma delas deseja se sobressair de alguma forma. A poeta escrevia porque também era tomada por uma febre de amar outra mulher que era companheira e apoiadora, assim como de poder ser irônica e enigmática diante de uma sociedade que não compreendia a sua poesia, muito menos o seu desejo. Ela é livre para escrever, ler poemas para a amante, costurar seus próprios manuscritos e guardá-los, como se soubesse que um dia encontrariam seu caminho.

O espaço do riso proposto por Madeleine Olnek em Loucas Noites com Emily funciona muito bem por encenar um olhar raríssimo diante da poesia de Emily Dickinson. Em vez da melancolia e do lamento de uma poeta vendida como enclausurada e infeliz, aqui há uma mulher que ri, que escreve, que ironiza a sociedade contemporânea local e ainda se dá o luxo de amar fora da ordem binária.

Tanto Shirley quanto Loucas Noites com Emily dão outras perspectivas de escritoras/poetas já canonizadas e com biografias já bastante exploradas. O que as realizadoras (aqui incluo roteiristas e também as próprias atrizes) nos propõe é investigar o que afetava a escrita dessas mulheres, o que de fato as impulsionava a criar e o que acontecia nos momentos em que se sentiram compelidas a sentar diante de uma máquina de escrever, ou de uma pena e de um tinteiro, e simplesmente serem tomadas pela febre difícil de explicar, mas possível de se ter um vislumbre quando performada.

  1. Em 2023 eu acabei escrevendo, para a extinta Suplemento Pernambuco, sobre as recentes traduções que a autora estava ganhando no Brasil e as possibilidades de recepção. Faço um apanhado sobre ela, dá para ler aqui https://pernambucorevista.com.br/acervo/artigos/3051-o-in-familiar-vive-em-casa-como-shirley-jackson-constr%C3%B3i-o-ins%C3%B3lito-em-suas-fic%C3%A7%C3%B5es.html ↩︎
  2. Atualmente já temos tradução para esse livro, O ninho do pássaro, saiu em agosto de 2025, pela Alfaguara, e também conta com a tradução da Débora Landsberg. ↩︎


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