Há anos pesquiso mulheres que dirigem filmes de terror e o longa Gebroken spiegels (que pode ser traduzido como Espelhos partidos) da diretora Marleen Gorris sempre aparecia nas listas. Comecei recentemente a leitura de I Spit On Your Celluloid: The History of Women Directing Horror Movies e a autora Heidi Honeycutt afirma que esse filme é perturbador, mas não entraria num livro de terror. Decidi então assistir logo e tirar minhas próprias conclusões.
Lançado em 1984, a maior parte de seu enredo se passa num bordel em Amsterdã. Ele traz duas prostitutas, Diane e Dora, que não estão satisfeitas com as vidas que levam. Acompanhamos o dia a dia delas, as discussões, os clientes, a limpeza que precisa ser feita todo dia pela manhã.
Em paralelo, temos a história de uma mulher que é sequestrada por um serial killer. Nunca vemos o rosto dele, mas sabemos que ele leva uma vida “normal”, tem um bom trabalho, esposa e parece ser dedicado a ela. Por trás dessa dita normalidade, ele sequestra mulheres, tira fotos delas e as deixa morrerem de fome.
Há uma cena em que diversos homens chegam ao bordel e o clima de tensão se instaura. Eles são muitos, elas são poucas e, apesar de terem um segurança no local, só podem contar com a proteção umas das outras. Dora, uma das mais experientes, avisa a colega: “Qualquer coisa bata na parede, eu estarei no quarto ao lado”. Até que gritos são ouvidos e uma das mulheres é encontrada esfaqueada, no rosto e na barriga.

Diane e Dora, com a ajuda de um dos clientes, a levam para o hospital. Quando eles retornam ao bordel, o cliente oferece uma grande quantia de dinheiro para que uma delas suba com ele para um dos quartos, desrespeitando o medo e a tristeza que elas estão sentindo. Aqui, o título do filme deixa de ser apenas metafórico, Diane atira, em direção ao cliente e contra todos, os espelhos do local.
Aqui retomo o comentário de Heidi Honeycutt e pergunto: Por que esse filme está em quase todas as listas de filmes de terror? Há tensão, há cenas “pesadas” e ele trata do já conhecido “terror de ser mulher”. A diretora não faz comentários contra ou a favor do trabalho sexual, ela apenas expõe os riscos que as mulheres correm nessa profissão, sendo o homem cishetero o principal perpetuador desses riscos.
Lembrando a fala de Stephen King sobre o terror de cada década, nos anos 80 pipocaram os filmes de acidentes químicos, medo esse decorrente de Chernobyl. Nos anos 70 o que reinava era o pânico satânico e nos 90, serial killers. Só que os medos de uma mulher são praticamente os mesmos desde sempre. Nossos corpos são vistos como públicos e disponíveis para o que os homens quiserem. Não há terror maior do que ser uma mulher nesse mundo.
A diretora é conhecida pelo teor feminista de seus filmes, e isso fica claro em Uma questão de silêncio, de 1982, que eu cheguei a resenhar na primeira temporada do Cine Varda. Em 1997 ela gravou uma versão de Mrs Dalloway, clássico de Virginia Woolf. Achei a tentativa válida, mas o filme não conseguiu transpor de maneira satisfatória para a tela o conteúdo do livro. Marleen Gorris também foi a primeira mulher a dirigir um longa premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com A Excêntrica Família de Antonia de 1995.


Deixe um comentário