Eu moro em Curitiba há quase 16 anos e não acompanhei apenas uma edição do festival Olhar de Cinema, que esse ano (2026) teve sua 15ª. Desde 2017 fui convidada duas vezes pela Abraccine para compor o júri da crítica, já fui jurada pela AVEC-PR quando também era voluntária na Associação e, há muito tempo, cubro o festival seja pelo Quadro por Quadro ou aqui pela Cine Varda, especialmente fazendo diários na nossa primeira versão do site. Sempre adorei escrever sobre os dias de festival e juntar as peças da produção contemporânea (ou da re-visão de clássicos), especialmente de realizadoras.

Esse ano não fiz diário porque precisava assentar os filmes que ia assistindo, deixando vislumbrar no cérebro o que conectava um filme no outro – pois sim, sempre algo se conecta, acredite. E um ponto ficou nítido desde o primeiro longa que sentei para assistir: as mulheres e pessoas dissidentes de gênero fazem a manutenção dos arquivos. O segundo grupo cria futuros possíveis para a existência de corpos e desejos fora da lógica e nós, do primeiro grupo, fabulamos a manutenção dos arquivos, garantindo que, como diria Hélène Cixous, em seu Riso da Medusa, possamos escrever para o futuro. 

Numa época em que imagens toscas e, literalmente, artificiais são (de)generadas por IA, em que é possível pedir num prompt um vídeo, sei lá, com a estética da década de 1970 com o seu rosto – vazio e sem conteúdo, satisfazendo um desejo tão efêmero quanto um reels de instagram –, assistir um documentário como Barbara para sempre, de Brydie O’Connor, e ver uma mulher transitando décadas, filmando a si e suas amantes numa linguagem cinematográfica toda sua, é ter certeza que vale a pena se agarrar a cada material físico que possamos deixar. Mas, nem é só por isso que o documentário é fascinante no sentido da manutenção de arquivos.

Começando pelo trabalho da própria artista documentada, a estadunidense Barbara Hammer ficou conhecida pelo seu cinema queer e experimental desde a década de 1970. O documentário de Brydie atravessa toda a vida de Hammer, antes mesmo de ela decidir explorar o mundo e seus afetos com as câmeras. Percebe-se que Brydie teve (e tem, porque a obra de Hammer vive, vemos ela rir e atravessar a tela nua tantas e tantas vezes que nos tornamos íntimas) uma relação muito particular com a obra e figura de Barbara, justamente por ser chamada pelo primeiro nome no título do filme. No seu site, a descrição de O’Connor é providencial: o seu trabalho aciona os arquivos por meio da queerização das estruturas narrativas dentro do espaço da não ficção. E é isso que ela faz mostrando, por exemplo, a esposa da cineasta, a ativista pelos direitos humanos Florrie Burke, vislumbrando as caixas de tudo que sua companheira por mais de três décadas deixou seguindo para o acervo de uma universidade.

A manutenção dos arquivos de Barbara Hammer é um entrelaçamento da sua prática de afetamento executada em seus filmes: mesmo que você nunca tenha assistido ao seu trabalho, sai da sessão do documentário particularmente afetada pela sua existência, vontade de existir e fazer outras existirem. Brydie trabalha com várias outras para que esse arquivo permaneça em pé justamente por conta da sua estrutura de narrar essa vida – e também o fim –, algo fundamental para a história do cinema enquanto forma e também enquanto lugar para dissidências estéticas.  Outra coisa que pega muito, é poder ver corpos e desejos de mulheres 70+  transitando e sonhando, mesmo com as perdas inevitáveis.

Em seguida, no mesmo dia, emendei num filme que faz a mesma manutenção só que de um ponto de partida do anonimato. Se o longa anterior era sobre manter viva, e em ação, a obra de uma cineasta de vasta produção, em Gato na cabeça, de Laila Pakalnina, da Letônia, 36 rolos de negativos fotográficos encontrados no lixo são o ponto de partida. Com isso, a diretora escreve uma história para essas imagens, brincando, inclusive, com a questão do negativo físico nas emendas que faz. O filme utiliza as imagens estáticas como elementos de transição de cenas encenadas a partir de um roteiro que a diretora executa com a mão de uma escritora. Uma pena que lá pela metade, o filme se torne repetitivo com a fórmula <foto seguido pela reencenação>, com uma história que carece de sacadas narrativas. Porém, a ideia de fabular um arquivo pessoal/familiar de gente desconhecida, que estava fadado a desaparecer, é instigante.

brincadeiras de dupla exposição em Gato na cabeça, de Laila Pakalnina

Foi com essa ideia do processo, de entender que as coisas levam anos, que sentei para assistir o meu favorito do festival: Um calendário incompleto, da diretora iraniana, radicada no Canadá, Sanaz Sohrabi. Enquanto pesquisadora de histórias visuais da soberania dos recursos e ecologias pós-coloniais do sul global, a diretora faz um caminho ensaístico para mostrar que nada é por acaso nos atuais conflitos globais; seja no Irã ou na Venezuela. A partir de um disco de vinil da década de 1980 – em que um coral venezuelano canta músicas “típicas” dos países que fazem parte da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), fazendo uma leitura fonética das muitas línguas que não sabiam –, a diretora constrói um complexo mosaico das relações íntimas e perigosas entre países e seus interesses econômicos. 

São duas as grandes sacadas de Sanaz: a primeira, fazer algo que vemos constantemente na história de escritoras/artistas/diretoras etc, olhar para detalhes que ninguém está prestando atenção – aquilo que costumam ver como anexo. Ela aproveita também para rememorar fatos históricos e faz isso por meio da segunda grande sacada: a montagem e o seu processo. As mãos da diretora em cena folheiam revistas de época e empilham os fatos físicos, textos que refletem possíveis revoluções suprimidas pelo desinteresse à fisicalidade de arquivos impressos. Coisas tão simplórias de aparência, como selos e cartões postais, vão surgindo na tela, contando a história de mandos e desmandos de homens no poder. No final, nos damos conta como a promessa de facilidade que os meios digitais prometiam são, na verdade, formas de fazer apagar a memória. Quem guarda e faz manutenção do que pode desaparecer num bombardeio, por exemplo?

Aí que, preocupada diante do sumiço dos arquivos que contam histórias que ainda não sabemos, fui assistir Anistia 79, de Anita Leandro. A professora universitária, que se dedica aos arquivos da ditadura militar no Brasil, tem um olhar muito cuidadoso e potente ao nos dar rostos diante dessa mancha inesquecível na história do país. Como já tinha feito em Retratos de identificação (assista aqui), aqui ela nos oferece imagens e relatos de sobreviventes que lutaram em várias frente do desmantelamento do regime. Em 2016 foram encontradas filmagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que aconteceu em Roma, em junho de 1979, um mês antes da sanção da lei aqui no país. Apesar do clima de encontro das imagens, vamos sabendo – pela narração de hoje, de pessoas que estavam lá, ou filhos e netos dessa gente – o que aconteceu antes e depois do evento de colaboração internacional. O que mais me pegou foram os pronunciamentos das mulheres naquele plenário e fora dele, a maneira como se colocam, algumas com suas crianças penduradas ou na plateia – já diria Glória Anzaldúa, não tem como esperar o momento certo. Os discursos dessas mulheres fizeram lembrar dos relatos das entrevistadas no podcast Escute as mais velhas, feito pela Sueli Carneiro e a Neca Setúbal: a gente realmente escuta e sabe das lutas das que vieram antes? Mais uma vez, o trabalho das guardiãs dos arquivos.

Nisso de guardar arquivos, veio um filme complexo e polêmico também: Se pombos virassem ouro, da diretora eslovaca Pepa Lubojacki, que levou o prêmio de melhor documentário no 76º Festival de Berlim/2026. O texto que escrevi na cobertura está aqui, mas algo que preciso ressaltar é que não é fácil abraçar a complexidade da proposta da diretora. Ao mesmo tempo que pode ser visto como denúncia e alerta – filmar o vício do irmão, a exposição daquela vida precária é absurda –, também nos coloca numa posição complicada de exploração observatória diante de uma vida por um fio. Talvez seja um pouco disso que incomoda as carolas que reclamam das auto-ficções/relatos/biografias, não sei. O uso de IA na edição é complexo porque justamente mexe com os arquivos, sendo utilizados para as fotos de família “falarem”, serem essa primeira pessoa no filme. É um filme que merece ser visto, nem que seja pelo debate, em especial para pessoas que foram crianças adolescentes na década de 1990 e presenciaram a quantidade de narrativas junkies que surgiram diante do desgosto daquela juventude. O irmão de Pepa vem desse lugar também.

O irmão de Pepa, em Se pombos virassem ouro

Gosto muito de aproveitar festivais nacionais para acompanhar cenas locais, especialmente onde eu vivo, aqui no Paraná. Foi com essa ideia que coloquei A Holandesinha na lista para assistir, filme dirigido pela dupla João Gabriel Kowalski e Luiza Godoi. Sobre o filme em si, eu escrevi aqui. Porém, uma coisa que me pegou foi como a Luiza, enquanto uma pessoa com síndrome de down, está deixando para o futuro narrativas em que ela não seja mais contada por outras pessoas, e sim que conte as coisas do seu próprio jeito e em parceria com pessoas que não tenham a síndrome. Essa foi uma sacada que só tive depois que escrevi o texto de cobertura. A Holandesinha é um filme sobre o processo de fazer um curta que está na cabeça da Luiza – uma comédia romântica protagonizada por um jovem com síndrome de down onde interessa apenas as peripécias do amor e o clima anos 80 –, e o João Gabriel & equipe entram em cena mostrando a viabilidade disso. Filmes de processo têm essa maravilha, desmistificam o cinema que já chega pronto e mostram a possibilidade diante de um interesse.

Outro filme que assisti e que pensa nas fabulações das existências, é o Bouchra, uma animação da dupla Orian Barki e Meriem Bennani. A Bouchra do título é uma coiote – e aí já vem uma sacada porque coiotes quase nunca são referidos no feminino e também são símbolos da ideia de trickster (trapaça, ilusão) – marroquina queer/lésbica que vive em NY e está escrevendo um roteiro onde dispositivos de sua relação com a mãe, a língua, a imigração vão acontecer nesse universo antropormófico da animação. O filme tem várias sacada que quero muito rever. O filme me lembrou bastante o conto “Buffalo Gals”, da Ursula K. Le Guin, em que uma coiote salva uma criança humana e muitas coisas simbólicas acontecem, infelizmente ainda não tem tradução.

Um filme, em especial, dirigido por homem, me chamou a atenção em relação às mulheres: o excelente A noite e os dias de Miguel Burnier, de João Dumans (conhecido pelo seu trabalho com o Affonso Uchôa, como em Arábia, por exemplo), em que ele filma habitantes remanescentes de um distrito mineiro, ocupado por uma fábrica da Gerdau. O diretor passou anos filmando essa comunidade e, talvez, por isso seja tão intimista acompanhar essas pessoas na tela. Escrevi sobre outros detalhes do filme, mas quero destacar as figuras de Rita e Zezé. São duas mulheres complexificadas nessa montagem (pense em quanto material de filmagem depois de anos) porque mesmo à deriva – vivendo num lugar abandonado, lutando para ter trabalho, criar os filhos e ter o direito mínimo à sociabilidade –, elas encontram espaço para dizer coisas bonitas sobre a vida, chorar e sorrir em seguida. Uma das cenas mais impactantes na verdade são duas. Rita e Zezé estão preparando um peixe na cozinha, a câmera super intimista ali dentro, e Rita começa a falar de como as pessoas fora do distrito (e até mesmo da Gerdau) a enxergam, a dificuldade de arrumar trabalho e lidar com o álcool. A conversa é emocionada e dolorida. Em seguida, ela surge em outra cena, fazendo lipsync da Pablo Vittar. O quanto a vida é complexa? Essas pessoas realíssimas, vivendo num distrito de Minas Gerais que a maioria de nós nunca vai pisar, na mão de um montador de cinema, nos mostram as pequenas belezas da vida, sem nenhum tipo de máscara. Rita e Zezé são um pouco de Elizabeth Teixeira, de Cabra marcado para morrer, sabe? Ficam com a gente.

Zezé, de A noite e os dias de Miguel Burnier

Para fechar, eu ia escrever sobre os poucos filmes que vi e que insistem em ainda construir personagens planas, dotadas de clichês e culpadas por tantas coisas no mundo, como se fossem Helenas de Tróia de hoje. Mas não, prefiro pensar na gente como guardiãs e fabulantes. Essa é a mágica de festivais, ter um panorama do que ainda pode ser feito e pensado no futuro. Ansiosa para o ano que vem.


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