1000 Women in Horror

1000 Women in Horror

Em algum ano, no dia dos namorados, vi um site de terror falando algo tipo “Nessa data veja uma comédia romântica com a sua namorada”. Não preciso nem dizer que senti um asco enorme, não é mesmo? O terror para mim sempre foi uma coisa feminina, aqui não no sentido errado da palavra, como as pessoas gostam de colocar, como algo delicado, frágil. Eu aprendi a gostar do gênero com a minha mãe. Cresci vendo mulheres como Ripley salvando tudo com seu gato. Sempre torci pelas final girls e amava cenas como a última de O Massacre da Serra Elétrica

O livro!

Recentemente um cara me disse que não conhecia muitas mulheres fãs de terror. Então ele não conhece mulheres, porque eu conheço várias delas, todas especialistas no gênero. De uns anos para cá eu me cerquei de mulheres que manjam muito de terror, que escrevem sobre, com as quais eu passo horas falando sobre. 

Faço coleção de livros de cinema, e dou prioridade para aqueles escritos por mulheres. Dentre eles está 1000 Women in Horror da Alexandra Heller-Nicholas. O livro é composto por pequenos verbetes sobre mulheres no gênero, além de algumas entrevistas. Óbvio que faltaram alguns nomes, principalmente daquelas fora do eixo EUA-Europa, mas é muito interessante e nos apresenta o trabalho de diversas mulheres incríveis. 

Eis que a Shudder (streaming que ainda não tem por aqui) nos presenteia com um documentário baseado no livro e que leva o mesmo nome. Dirigido pela Donna Davies, ele traz aquele formato básico de depoimento e cenas de filmes. Ele é dividido em seis temas: girlhood, school years, womanhood, working life, motherhood, and ageing (algo como que abarcando a infância, adolescência, se entender nas condições de mulher, trabalhadora, na maternidade e  envelhecimento). 

O documentário traz depoimentos de mulheres sensacionais, entre elas a Kier-La Janisse, diretora, curadora e crítica de cinema que eu mais admiro nesse meio. Seu livro House of Psychotic Women se tornou uma bíblia para mim. Outra mulher essencial ao gênero que aparece aqui é a Mary Harron, diretora do impecável Psicopata Americano.

Aqui um parênteses para falar do filme que traz Christian Bale no papel principal. Ele se tornou um ícone de muito incel e dá para ver que as pessoas não entenderam nada. O personagem foi baseado no livro de um autor LGBTQ+, dirigido por uma mulher e mostra o quão ridículo um homem pode ser. Mas enfim, faz falta uma compreensão melhor das coisas.

a autora.

Voltando ao documentário, também temos a atriz Kate Siegel em uma cena memorável em que ela conta sobre sua gravidez e o parto. Ela descreve em detalhes típicos de um filme assustador. Apesar da maioria das entrevistadas ser de mulheres cis brancas, há depoimentos de Mattie Do, única diretora mulher de Laos, e a primeira diretora de terror do país. Amei ver a diretora Nikyatu Jusu ali. É dela o maravilhoso curta Suicide by Sunlight e o longa Nanny. Há também depoimento da Cerise Howard, dando uma perspectiva trans do gênero. 

Enquanto documentário, o 1000 Women in Horror deixa um pouco a desejar. Eu, que sou contra séries (não consigo me comprometer), acho que esse sim deveria ganhar mais episódios. Cada tema merece sua uma hora completa. Aqui ficou muito corrido e não houve aprofundamento. Isso não é uma crítica, afinal foram tantos anos de espera. Mas ainda me deixa muito brava saber que há apenas um documentário sobre mulheres, que as coloca todas na mesma caixinha. 

Mulheres fazem filmes sobre vampiros, sobre assassinos, sobre lobisomens, sobre fantasmas. Eu sempre fui contra os termos “literatura feminina” e “female fronted” para bandas, então sou contra no cinema também. Mas é aquilo, um passo de cada vez, mesmo que com tantos anos de atraso. 

Ao final, a Alexandra Heller-Nicholas diz que ainda há muitas mulheres para falarmos a respeito. O documentário jamais cobriria todo o livro. Fiquei pensando nas diretoras que temos aqui no Brasil, como a Juliana Rojas, Anita Rocha da Silveira e Gabriela Amaral Almeida. E atrizes como a Gilda Nomacce. Isso sem falar nas pioneiras como a Rosângela Maldonado. Quem sabe um dia não ganharemos um documentário sobre o terror brasileiro feito por mulheres. 


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